VOCÊ GOSTA DE LER?

Leitura é muito mais do que decodificar palavras. É ir muito além! É voar sem destino pelas páginas de um livro.
Devemos observar várias formas de arte, expressas em textos escritos ou não (verbal ou não verbal) e, delas tirar lições, reflexões, ou mesmo divesão. O que não podemos é sairmos indiferentes, pensando: não entendi nada! Ou fingindo ter entendido tudo, sem no entanto, ter compreendido o que o emissor realmente disse.
Muitas mensagens, realmente são de entendimento dúbio, ou seja, dá margens a mais de uma interpretação.
O que não se deve, é não entender nada! Se por acaso isso acontercer, e não é nada depreciativo assumir isso, devemos buscar mais informações e, fazer com que de alguma forma, essa leitura acrescente algo de positivo em nossa vida.

Leia, vá ao cinema, museus, shows, teatros, ouça músicas, mas reflita, pense!
Se não tiver argumentos bem fundamentados, cale-se e vá aprender mais.


"NÃO TENHO UM NOVO CAMINHO. O QUE TENHO É UM NOVO JEITO DE CAMINHAR." (Thiago de Melo)


domingo, 24 de junho de 2018

AINDA QUE MAL ( Carlos Drummond de Andrade)

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO (Carlos Drummond de Andrade)

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. 
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. 
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: 
— Não há nada a fazer, Dona Coló. Esse menino é mesmo um caso de poesia. 

domingo, 27 de maio de 2018

A BELEZA TOTAL ( Carlos Drummond de Andrade)

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.
A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.
O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.
Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.

domingo, 20 de maio de 2018

VERBO SER (Carlos Drummond de Andrade)

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

sábado, 19 de maio de 2018

AUSÊNCIA ( Carlos Drummond de Andrade)


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

PÁGINAS DA ZONA DE SOMBRA (José Antônio Cavalcanti)


 I

Isso é um teste, um texto, um resto. Isso é, são, foi, foram os, as. Palidez de palavras na página porque as sílabas não captam. Ex, quase, talvez ou nunca, os sentidos escapam pelos túneis semânticos do precário. Todos os signos, isso: areia movediça, pântano, entulho, a traição dos espelhos, insignificância. Especulação a escrita. Fluxo, continuum, duração bergsoniana em que se esboroa a experiência. Sintaxe de desgaste, esquizofrenia da linguagem. Rasura e falha, o texto desenha a camuflagem para a impossibilidade da fala. Excesso de poréns, concessivas em remendos, temporais do instantâneo, causas sem consequência e vício-versa. Todas as sentenças são relativas, isto é, poeira radioativa de significados flutuantes e invisíveis. De tecer, carimbam especialistas, a origem. O texto, entre tantos, é onde o mundo acontece e todas as páginas são, simultaneamente, formas de desaparecimento. Isso não é um teste, sequer um texto, nem há nada que preste, por isso poesia é imprestável, toda arte é manifestação de imprestância. Isso não é, e isso é tudo que é possível ser. Acontecer vem do latim *contigescere, var. de *contingescere, incoativo de *contigère, do lat. contingère 'atingir, chegar a; encontrar; resultar de'. Não obstante, ninguém escreve para encontrar a, o, se. Toda palavra é o som e a grafia da perda. Não capturar significados, dissipar-se, doar-se, acender a queda como dêitico da liberdade.

quarta-feira, 7 de março de 2018

DIAS LENTOS (José Antônio Cavalcanti)

Iremos sem pressa
despejando
monossílabos pelo caminho
porque é nos olhos
que dizemos
a tangência amorosa
antes
que a última curva
separe nossas mãos
molhadas
de chuva e de carinho.