VOCÊ GOSTA DE LER?

Leitura é muito mais do que decodificar palavras. É ir muito além! É voar sem destino pelas páginas de um livro.
Devemos observar várias formas de arte, expressas em textos escritos ou não (verbal ou não verbal) e, delas tirar lições, reflexões, ou mesmo divesão. O que não podemos é sairmos indiferentes, pensando: não entendi nada! Ou fingindo ter entendido tudo, sem no entanto, ter compreendido o que o emissor realmente disse.
Muitas mensagens, realmente são de entendimento dúbio, ou seja, dá margens a mais de uma interpretação.
O que não se deve, é não entender nada! Se por acaso isso acontercer, e não é nada depreciativo assumir isso, devemos buscar mais informações e, fazer com que de alguma forma, essa leitura acrescente algo de positivo em nossa vida.

Leia, vá ao cinema, museus, shows, teatros, ouça músicas, mas reflita, pense!
Se não tiver argumentos bem fundamentados, cale-se e vá aprender mais.


"NÃO TENHO UM NOVO CAMINHO. O QUE TENHO É UM NOVO JEITO DE CAMINHAR." (Thiago de Melo)


domingo, 8 de março de 2020

NÓDULO (Roseana Murray)


Quando em algumas noites
Tenho medo dos vivos e dos mortos
E o fogo que escapa das estrelas
É uma faca na garganta
Quando em algumas noites a distância
Entre o que foi e o que está sendo
É arquitetura intransponível
E os sonhos fogem como peixes em agonia
A poesia é o grito secreto
A geografia que atravessa este abismo
O sortilégio que me faz humana
Que me faz em chamas
Que me faz tocar o nódulo
Das perguntas sem respostas

sábado, 7 de março de 2020

CARAVANA ( Roseana Murray)

no meio do deserto
os homens arrumam
a noite
para que a caravana
pouse
o céu é de zuarte
e o silêncio anda
em círculos
feito lobo

alguns mastigam
sonhos
enquanto o sono
costura as pálpebras
com o fio do não tempo

essa é a pausa
entre um século
e outro
entre um delírio
e outro

em algum lugar
dorme um poço
com seus anjos
e demônios.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

EVOLUÇÃO DO HOMEM (Clovis C. Rocha)

Chupeta, mamadeira, dedão,
andador, triciclo, bicicleta, 
canivete, faca, trombadinha, 
moto, carro,  furto, assalto, 
revolver, pistola, fuzil, 
miliciano, político.

sábado, 25 de janeiro de 2020

AMANTES (Clovis C. Rocha)


Gritas quase louca
Quero calar-te a boca
E mais gritas
Eu mais me esforço
Esgotam-se as energias
Tombo-me à direita
Olhas para o espelho do teto
Já sem forças agora
Você não mais chora
Apenas olha-me
Também no espelho refletido
Com os olhos quase perdidos
Eles que antes eram fogo
Agora são culpa
E em silêncio pedem
Para que os deixem dormir
Está formando no teto
Com um traço abstrato
Uma cabeça dois corpo
Quatro pernas quatro braços
E um só coração
Disparado dentro do peito
Abatidos sobre um leito
Antes de adormecermos
Nossas bocas se unem
Sem pressa
Com a pouca força que resta
Antes que durmamos em paz.



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

SEM FRONTEIRAS (Clovis C. Rocha)


Há dois relógios dentro de mim
Um deles diz: não pare
Outro diz: pare sim!

Tem duas setas em minha mente
Uma diz: olhe para trás
Outra diz: olhe para frente!

Tem dois vagalumes na minha mão
Um acende a lanterna
Outro dá um apagão

Não sei se corro ou caminho
Mas sei onde quero chegar
Se corro, chego mais cedo
Porém, terei que esperar.
Talvez não esteja maduro
O fruto que irei buscar.

Pra frente é que vou seguir,
Para trás não quero voltar
Nos caminhos que já percorri
Tinham pedras para ultrapassar.

Outras tantas encontrarei
Nos caminhos rumo ao futuro
Jamais pedra atirarei
Muito menos construirei muro.

Quero um mundo sem fronteiras,
Bastante respeito,
Muita liberdade,
E bastante seguro.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

OS PESARES (Clovis C. Rocha)


Apesar das dores, nasci
Apesar da escassez, às vezes comi
Apesar da opressão, lutei
Apesar de ser homem, chorei
Apesar do desencanto, amei
Apesar das escolas, estudei
Apesar do ensino, aprendi
Apesar da cegueira, eu vi
Apesar dos gases, respiro
Apesar da certeza, duvido
Apesar dos poderes, resisto
Apesar das derrotas, insisto
Apesar de fechado, adentro
Apesar dos tombos, levanto
Apesar dos pesares, continuo
São tantos os pesares que vemos
É por esses pesares extremos
E pelos poucos poderes que temos
Que dou meus pêsames
Meus pêsames!

sábado, 26 de outubro de 2019

CASAMENTO COM O DESTINO ( Moacyr Scliar)


"Mulher casa-se consigo mesma." Mundo, 18.6.98

Decidida a se casar consigo mesma, ela optou por 
transformar o fato não apenas numa festa, mas numa celebração: a celebração da individualidade triunfante. Não preciso de ninguém para ser feliz, era a mensagem que queria transmitir, mas sem rancor, sem ressentimentos; ao contrário, partilharia com muitos amigos essa felicidade enfim descoberta.
Para isso, organizou cuidadosamente a cerimônia. Havia um convite para o casamento em que, naturalmente, figurava apenas o seu nome; havia a cerimônia propriamente dita, que contaria com o apoio de um juiz de paz heterodoxo; e finalmente havia a grande recepção, para mais de 200 pessoas. Entre elas, um convidado especial: o ex-noivo
Durante quatro anos haviam acalentado o projeto de viver juntos. E então, subitamente, ele desistira. Não nasci para viver com outra pessoa, ele lhe havia confessado. Num primeiro momento, ela se desesperara: Mas como, depois de um noivado tão longo, você me diz uma coisa dessas? Depois, compreendera e aceitara. E pretendia até que o seu casamento servisse de modelo para ele e outros solitários: o matrimônio individualizado se transformaria numa instituição do nosso tempo.
E aí veio o dia do casamento, e lá estavam todos os convidados, alguns espantados, mas todos alegres, o ex-noivo e o juiz de paz. Diante desse homem, ela compareceu, vestida de branco, com véu e grinalda, pronta para o momento decisivo.
Até agora, ela não sabe o que aconteceu. Quando o homem lhe perguntou, tal como previsto, "Aceita esta mulher como sua legítima esposa?", a resposta que ela deu, numa voz rouca, uma voz que não era a sua, foi um rotundo "Não".
Não é a negativa que a incomoda. É a voz. Enquanto não descobrir que voz falou de dentro dela, não terá descanso. E, pior, terá de continuar celibatária.